Sobre Espiritismo

              Claudio C. Conti

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Novembro 2020
Análise da Realidade


Enquanto seres encarnados, nossa relação com o mundo exterior ocorre através dos sentidos físicos. Embora, muitas vezes, sejam considerados como sendo infalíveis, especialmente a visão, os sentidos físicos são instrumentos de medição muito rudimentares e limitados. Reconhecendo os sentidos como instrumentos de medição do mundo, destacado de qualquer valor emocional, naturalmente concluímos que estes instrumentos são falíveis, passíveis de serem enganados e mal interpretados.

Os mágicos e os jogos de ilusão de ótica comprovam a fragilidade da nossa percepção de eventos e do mundo em geral. Inúmeros instrumentos desenvolvidos pelo homem também comprovam as nossas limitações sendo, o mais utilizado, os óculos para aprimoramento da visão. Dentre os mais simples e comuns temos microscópios, telescópios, sonares, aparelhos auditivos, etc. que atestam “realidades" até então inconcebíveis.

Não podemos esquecer que os sentidos físicos, como instrumentos de medição, apenas realizam medições do ambiente, isto é, são responsáveis pela aquisição de dados que são transmitidos para uma central de análise, no caso, o cérebro. Para nós, espíritas, a cadeia é ainda mais complexa, pois, os dados são transmitidos através de vários componentes físicos - perispírito com suas diversas camadas - até ao espírito que processará os dados através do psiquismo.

À primeira vista, pode parecer que, chegando ao psiquismo, tudo estaria resolvido, mas não é simples, pois, inclusive nesta etapa, o processo apresenta complicações.

O psiquiatra suíço Carl G. Jung, conhecido como o Pai da Psicologia Analítica, diz que “há aspectos inconscientes da nossa percepção da realidade. O primeiro deles é o fato de que, mesmo quando os nossos sentidos reagem a fenômenos reais e a sensações visuais e auditivas, tudo isso, de certo modo, é transposto da esfera da realidade para a da mente. Dentro da mente esses fenômenos tornam-se acontecimentos psíquicos cuja natureza radical nos é desconhecida (pois a psique não pode conhecer sua própria substância)”[1].

Assim, se a nossa descrição inicial não fosse complexa o suficiente, Jung diz que a “realidade" externa, na transposição para a mente, passa a ser uma “realidade” psíquica. Neste sentido, quando consideramos que o único acesso consciente que temos acerca de um evento é aquilo que denominamos de “realidade psíquica” e não do evento por si só, requer considerar que as outras pessoas também vivenciam suas realidades psíquicas de um mesmo evento, podendo, por isso, serem diversas. Em suma, para um mesmo evento físico, várias são as suas interpretações, ou, ainda, para uma mesma realidade física, várias podem ser as realidades psíquicas.

Neste contexto, o ensinamento de Jesus que diz para não julgarmos ganha outra proporção [2].

Primeiramente, fica claro a impossibilidade de qualquer julgamento, haja vista que não temos acesso a realidade psíquica daquele que seria o julgado, portanto, não teríamos como avaliar as suas motivações e, nem mesmo, se o resultado foi como ele esperava ou, ainda, se seria decorrente de uma reação a uma realidade que seria somente dele.

Podemos ter a noção das dificuldades envolvidas em qualquer julgamento quando analisamos àqueles relacionados com a justiça comum, nos quais participam advogados, promotores, juízes, jurados, etc., além de todas as leis e procedimentos que devem ser seguidos. Mesmo assim, com todo este cuidado, numerosos erros são cometidos.

A prática de julgar conduz à certa rigidez mental. Esta perda da flexibilidade e ponderação na avaliação com os outros acarretará postura semelhante para consigo mesmo. Isto é, o vício em julgar fará com que o próprio indivíduo julgue a si mesmo e com o mesmo rigor. A diferença crucial é que se julgamos os outros, estes não necessariamente estarão subjugados ao nosso julgamento, porém, quando nos julgamos, nós estaremos subjugados ao julgamento. Assim, esta prática é mais prejudicial àquele que a pratica do que às suas vítimas. Não é por acaso que Jesus ressaltou: "porquanto sereis julgados conforme houverdes julgado os outros; empregar-se-á convosco a mesma medida de que vos tenhais servido para com os outros”[2].

Referências:
[1] Carl G Jung, O Homem e seus Símbolos, pg 21.
[2] Allan Kardec; O Evangelho Segundo o Espiritismo, Cap. X item 11.