Claudio C. Conti

Espiritismo, Ciência,
Espiritualidade e
outros temas

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Dezembro 2020
A Realidade Pessoal


Na condição de seres espirituais momentaneamente contidos/limitados/obliterados por uma certa quantidade de matéria, comumente denominada de corpo, costumamos denominar de realidade aquilo que está relacionado com esta quantidade de matéria - o corpo - e a matéria ao redor, comumente denominada de “outros corpos” ou “outras pessoas" e de meio ambiente.

Esta relação, apesar de aparentemente fazer sentido, não se sustenta quando tentamos aprofundar um pouco mais no seu entendimento. Muitos se sentem surpresos quando percebem a ausência de significado e fazem um enorme esforço para permanecer ignorância. Porém, não é possível desaprender aquilo que se aprendeu, desta forma, a partir do momento em que nos conscientizamos de algo, não há forma de se voltar atrás. Nisto que consiste o ensinamento que diz que o espírito não retrograda [1]. Em outras palavras, ao tentar retornar ao estágio de ignorância, o espírito tende a se manter estacionário, mas, retroagir, nunca [1].

Na relação enfermiça, de aparente sentido, muitos encontram significado em proteger uma espécie de animal que esteja em vias de extinção, cuidados com seu gato, cão ou qualquer outro animal de estimação, enquanto devora um prato de carne bovina, suína ou de frango, sendo que, muitas vezes, é uma combinação de carnes de diferentes origens.

Um animal não sabe que sua espécie está em extinção e, por isso ou independente disso, sua vida é tão importante para ele quando a vida de uma vaca o é para ela, que existe em abundância. Ambos desejam o mesmo: viver e cumprir o seu papel, seja o papel de arara azul para a arara azul ou o papel de vaca para a vaca.

Assim, percebe-se que tudo o que é dito com relação ao meio ambiente e à preservação é, na verdade, uma manifestação do próprio egoísmo tendo nada, ou muito pouco, com noção social ou ecológica. Isto esclarece uma questão interessante, o motivo pelo qual outra parcela da população não cuida do meio ambiente: também motivado pelo egoísmo, busca seus interesses mais imediatos. Aqui, também, pode-se aplicar o ensinamento de Jesus que diz para não julgarmos para não sermos os julgados [2].

Outro agravante no entendimento de nós mesmos é o fato de nos molestarmos em saber que em certo país se come cachorro e não nos molestarmos quando nossos próprios pratos estão repletos de carnes de animais variados.

Vivemos, portanto, uma realidade pessoal na qual apenas a própria forma de pensar é considerada. Nesta visão de realidade, quando levada ao extremo, surge a intransigência, seja política, religiosa, filosófica, as mais comuns, ou qualquer outra. Mas, o interessante disto tudo é que não percebemos.

Uma explicação aceitável pela dificuldade em percebermos estas falhas que cometemos e que impedem nosso crescimento espiritual foi apresentada pelo psiquiatra Carl G. Jung quando diz: "Há, ainda, certos acontecimentos de que não tomamos consciência. Permanecem por assim dizer, abaixo do seu limiar. Aconteceram, mas foram absorvidos subliminarmente, sem nosso conhecimento consciente”;”E apesar de termos ignorado originalmente a sua importância emocional e vital, estas mais tarde brotam do inconsciente como uma espécie de segundo pensamento”[3].

Simplificando, podemos dizer, em termos leigos, que desconhecemos o que se encontra nas profundezas de nós mesmos, isto é, não nos conhecemos e, por isso, o processo de autoconhecimento se torna fundamental para o crescimento espiritual. Sem o autoconhecimento continuaremos com o comportamento inadequado acreditando sermos espiritualizados e evoluídos, não sendo “como os outros”, tal qual o fariseu na seguinte parábola "a alguns que punham a sua confiança em si mesmos, como sendo justos, e desprezavam os outros: Dois homens subiram ao templo para orar; um era fariseu, publicano o outro. - O fariseu, conservando-se de pé, orava assim, consigo mesmo: Meu Deus, rendo-vos graças por não ser como os outros homens, que são ladrões, injustos e adúlteros, nem mesmo como esse publicano. Jejuo duas vezes na semana; dou o dízimo de tudo o que possuo. O publicano, ao contrário, conservando-se afastado, não ousava, sequer, erguer os olhos ao céu; mas, batia no peito, dizendo: Meu Deus, tem piedade de mim, que sou um pecador. Declaro-vos que este voltou para a sua casa, justificado, e o outro não; porquanto, aquele que se eleva será rebaixado e aquele que se humilha será elevado”[4].

Referências:
[1] Allan Kardec; O Livro dos Espíritos, Questão 118.
[2] ___; O Evangelho Segundo o Espiritismo, Cap. X item 11.
[3] Carl G Jung; O Homem e seus Símbolos, pg 22.
[4] Allan Kardec; O Evangelho Segundo o Espiritismo, Cap. XXVII item 3.